Atlanta é mais uma das obras artísticas criadas pela mente brilhante de Donald Glover, que tem acumulado sucesso por vários trabalhos — o mais recente é o clipe “This is America”, com a sua alcunha rapper de Childish Gambino — e estará em breve nas telonas interpretando Lando Calrissian no longa de Han Solo. Seu talento se torna ainda mais evidente na série devido às diversas funções que ele executa: produtor executivo, protagonista, roteirista e diretor de alguns episódios, em sua maioria conduzidos por Hiro Murai.

Enquanto a primeira temporada de Atlanta apresentava a vida cotidiana de Earn (Donald Glover) tentando agenciar a carreira de seu primo rapper Paper Boi (Brian Tyree Henry) e, assim, conseguir auxiliar sua namorada Van (Zazie Beetz) nos cuidados da filha deles, a segunda se aprofunda mais nas dificuldades do protagonista, ao mesmo tempo que dá espaço de tela suficiente para os coadjuvantes terem seus próprios episódios, modificando assim o tom narrativo que há entre os capítulos, mas não os transformando em algo sem ritmo.

A diferença mais clara é a densidade da segunda temporada em relação à primeira, já que ela possui um clima muito mais maduro em relação aos problemas dos protagonistas e não dá tanta brecha para válvulas de escape mais divertidas, algo que o ano 1 conseguiu fazer nos capítulos “Streets on Lock” e, principalmente, “B.A.N.” Os 11 episódios apostam em situações mais difíceis do relacionamento entre Van e Earn, no compromisso do protagonista em tornar Paper Boi um sucesso e nas representações sociais que acompanham a produção desde seu episódio piloto.

Os capítulos permitem protagonismo aos coadjuvantes: Van é a personagem principal de um episódio que questiona as futilidades e o mundo falso que existe nas redes sociais; Paper Boi tem um dia surreal após uma ida ao cabeleireiro, e Darius (Lakieth Stanfield) conhece Teddy Perkins, uma pessoa excêntrica e assustadora que deixa até o personagem mais desencanado de Atlanta com calafrios. Esse espaço dado ao trio permite que os atores mostrem o quão bons eles são, fazendo jus ao crescimento que têm conseguido em Hollywood.

O ápice do segundo ano curiosamente não coloca nenhum dos atores principais na tela, mas sim versões mirins de Earn e Paper Boi. O episódio “FUBU” se passa no período estudantil deles e mostra o quão difícil pode ser um dia na escola, detalhando a pressão social que já existe dentro do colégio para diferentes tipos de pessoas. Conforme o episódio prossegue, acaba se tornando bastante triste, principalmente quando um personagem tem um destino inesperado, e alguém que parecia pouco relevante para a trama se torna a representação de uma doença comum atualmente.

Mesmo que ainda mantenha alguns pontos claramente humorísticos e inesperados para tramas que pareçam mais críveis, Atlanta cresce muito em qualidade quando abraça a maturidade, algo que já existia na primeira temporada, mas ganha predominância no segundo ano. É possível rir das situações absurdas que acompanham o quarteto principal, porém o roteiro parece mais efetivo quando quer discutir temas sociais, colocar perspectivas diferentes em confronto e inserir Darius numa situação incomum ao personagem. Donald Glover mantém a série em alto nível com sua narrativa realística do cotidiano, mas ela pode soar um pouco mais séria do que o que conquistou o público anteriormente.

Este texto foi escrito por Gustavo Rodrigues via nexperts.