Como forma de incentivar nossos leitores a conhecer o Clube Minha Série e a dar maior reconhecimento aos usuários que vêm publicando textos, opiniões e resenhas em nossa comunidade, apresentamos aqui no site Minha Série um exemplo de material produzido por um leitor. O escolhido de hoje foi Charles Pichler, com seu artigo sobre séries de “Tragicomédias”. Esperamos que goste do texto e que se sinta instigado a interagir mais em nosso Clube!

Tragicomédias

Se os dias atuais parecem mostrar um domínio de séries que abrangem, de um sem número de modos, o universo dos super-heróis, outrora o que parecia cativar maiormente o público eram as sitcoms. Desde Seinfeld, ao final da década de 80, se inicia uma explosão de séries com esse estilo, que tem como uma de suas marcas as espalhafatosas risadas de fundo. Friends, The Fresh Prince of Bel-Air, Two and a Half Men, How I Met Your Mother, The Big Bang Theory - para citar algumas.

Neste nosso século, contudo, principalmente nos últimos dez anos, há uma transição constante na abordagem cômica de algumas séries. A mudança reside em uma visão ora realista, ora surreal, da existência, das coisas da vida, contando com elementos que fogem das narrativas concentradas em piadas curtas e auto-explicativas - outra marca das sitcoms. Embora a intenção de toda série de comédia seja, de algum modo, fazer uso da realidade, trazendo-a ao riso, as "tragicomédias" (como as chamarei) trazem a tragédia como a realidade absurda e única da condição humana, e o riso, a comédia, como nossa única defesa, alternativa frente ao pasmo.

Mostrarei cinco exemplos de "tragicomédias" que, embora um tanto desconhecidas pelo grande público, são bem vistas pela crítica. Na exposição tentarei ser o mais breve possível para que se evite o enfado. Critérios puramente subjetivos.

5. Silicon Valley

Silicon Valley apresenta o contexto, por óbvio, do mundo da tecnologia do Vale do Silício, situado na Califórnia. Podemos, sem qualquer injustiça, dizer que a série possui premissas semelhantes às de The Big Bang Theory. Um grupo de amigos, chamemos assim, inteligentes, criativos, pretensiosos, mas que vivem à margem da sociedade, sem qualquer maneio com a vida comum, social.

Richard Hendricks, o protagonista, cria um algoritmo que acelera substancialmente a taxa de compressão de arquivos, o que dá origem à Pied Piper, empresa que gerenciará a aplicação desse algoritmo. Eu não tenho a menor ideia do que exatamente representa essa criação, mas isso de modo algum dificulta no acompanhamento da narrativa da série.

Os demais e principais personagens são Dinesh e Gilfoyle, programadores, competitivos e inimigos em rigorosamente tudo. O primeiro representa o estereótipo indiano. Seu papel na série é ser comicamente "tosco", digamos assim. O segundo, satanista e sarcástico, é o dono do humor negro na série. Além deles, há Erlich Bachmann, o dono da encubadora, isto é, a casa onde os "piedpipers" residem; e Jared, uma espécie de manager da Pied Piper. O primeiro, tão louco e irresponsável quanto se pode ser; o outro, tão estranho. Todos eles, vale concluir, se juntam ao redor da personalidade brilhante mas assustadoramente incompetente para a vida de Richard.

Se sobra potencial à tecnologia dos piedpipers, lhes faltam a sorte. O decorrer dos episódios é uma sequência ininterrupta de "um passo à frente, dois para trás". A lei de Murphy ataca a rodo. Portanto, tem-se configurada a tragédia: inabilidade para a vida comum acrescida da falta de sorte e incapacidade de tomada de decisões, que estagnam o desenvolvimento profissional. Resta, apenas, rir:

4. Master of None

Master of None, série original Netflix, criada, roteirizada e dirigida por Aziz Ansari, distancia-se muito do estilo da supracitada Silicon Valley. A abordagem da vida cotidiana e novaiorquina de Dev, um ator de descendência indiana, permite ao roteiro certa ausência de um seguimento estrito e fechado. Não por isso poderíamos pressupor bagunça ou falta de conexão. Muito pelo contrário. O estilo mais livre da narrativa concatena com a proposta de ter a vida real como premissa e fundo da(s) trama(s). Sim, o plural é possibilidade quando falamos da trama. Ainda que possamos dar unidade ao roteiro da série, trata-se de uma unidade de multiplicidades. Ora, a vida, pois, não nos apresenta, muitas vezes, como uma linearidade passiva. A série, portanto, é coerente com sua premissa.

Dev, com seus trinta e alguns anos, oscila sua vida entre trabalhos variados como ator, amigos e encontros amorosos. A intenção parece ser a criação de um retrato da vida moderna, principalmente em se passando na capital cultural do ocidente. E o trágico, pois, reside justamente neste retrato. A necessidade de conexão com o outro, ou com algo, apresenta-se como uma pena perpétua; isto é, não há um último encontro, uma última cerveja, um último prato de "pasta" - não há, pois, ao vivente enquanto vive o momento. O retrato da vida moderna é viver como se fôssemos infindos. O paradoxo caracteriza a tragédia: não somos.

A comédia, na série, poucas vezes ou nunca se mostra explicitamente. Redireciona-se o espectador a rir do absurdo ou patetismo das situações vividas pelos personagens. Trata-se de um cômico um bocado "schadenfreude", termo alemão que significa a felicidade que sentimos com o infortúnio alheio. Por outro lado, não tanto, pois é perfeitamente possível pôr-se no lugar dos personagens e rirmos, de certo modo, de nós mesmos.

Aqui um exemplo de que a série nem sempre permanece no tédio cotidiano. É para se rir? Não sei. Talvez de espanto:

3. The Office

A mais antiga da lista, The Office, em sua versão britânica e original, é criada, escrita e dirigida por Ricky Gervais e Stephen Merchant, e protagonizada pelo primeiro, um dos maiores gênios atuais da comédia. Não fugindo à regra, também é muito distinta das demais séries aqui listadas. The Office é um mockumentary, ou pseudodocumentário, que registra o cotidiano de um escritório de uma fábrica, fictícia, é claro, chamada Wernham Hogg. Não podemos dizer que o estilo mockumentary tenha surgido com a série. Sem uma pesquisa prévia, consigo me lembrar do filme oitentista Zelig, de Woody Allen, com esse mesmo estilo narrativo. Enfim.

A série "documenta" o cotidiano dos funcionários, capitaneados por David Brent (Gervais), o gerente. Com alguma certeza pode-se afirmar se tratar do personagem mais patético e ridículo já escrito. Suas tentativas "frente as câmeras" giram em torno de uma busca surrealmente desesperada de transpassar uma imagem de "o chefe amigão e competente, por isso respeitado". Quando, na realidade, os principais personagens, ops, funcionários, Tim (Martin Freeman), Gareth e Dawn, estão inteiramente cagando para as ações e intentos do chefe.

A tragédia, aqui, tem dois níveis. O primeiro, e mais doloroso, é a constante sensação de vergonha alheia que David transpassa a cada merda de segundo. Suas tentativas possuem um grau pouco anexo à realidade. Isto é, por mais que em qualquer ambiente existam pessoas que necessitam criar uma imagem de si mesma aos outros, e, portanto, projetarem-se ao centro das atenções, as ações de David extrapolam essa realidade. Seus discursos sobre como é um bom chefe, engraçado, não racista, farrista, galanteador, denotam um auto-orgulho exacerbado às nuvens. Tudo isso sob o fundo mockumentary, como se estando em um escritório, ambiente, verdadeiro. Cria-se um espectro que faz o espectador perceber a irrealidade crendo-a como realidade. Eis desenhada, portanto, uma overdose de vergonha alheia.

O segundo nível se estende aos personagens, como um todo. Wernham Hogg é o lugar "where life is stationary", isto é, o lugar onde a vida não acontece. David, Tim, Dawn e Gareth se assemelham sob o aspecto da inanidade. David, um quarentão sem perspectivas de crescimento pessoal ou profissional. Tim, recém chegado aos trinta anos e sem almejar crescimento na empresa, na vida. Encontra-se estagnado: vive com a mãe e não tem coragem para se declarar a Dawn. Já Dawn, presa ao emprego e a um relacionamento infeliz. Por fim, Gareth. Uma versão jovem, esquelética e bajuladora de David. Com uma postura que ele crê ser de rectidão militar, desenha-se um fracassado com muito amor próprio.

Riamos:

2. Atlanta

Talvez possa parecer exagero colocar à frente de The Office uma série que ainda se constrói, tendo encerrado sua segunda temporada recentemente. Mas não hesito. Atlanta em apenas dois anos já alcançou um nível de genialidade ímpar, comandada por humor e crítica social afiadíssimas. A trama acompanha Earl (Donald Glover, de Community), seu primo, o rapper Alfred, e Darius, o amigo que está sempre por perto.

A intenção de Glover, criador e protagonista, parece ser simplesmente a abordagem do cotidiano de um negro no contexto social estadunidense. Contudo, embora isso não represente uma novidade televisiva, o ponto de partida não tem como cenário situações drásticas de existência. Earl, ao início da série, irá à procura de Alfred com o intento de gerenciar sua recém lançada carreira de rapper após o sucesso de "Paper boi" nas rádios. Isto é, ao menos Al, e o onipresente Darius, estão em um cenário financeiramente confortável.

A série se desenrola com as intempéries da vida de Earl, um andarilho sem estadia ou dinheiro, com uma relação confusa com Van, mãe de sua filha, Lottie. Também, com o tédio e acidez de Al, um rapper 'old school' em dias de efervescência social/virtual. Por fim, Darius, com seus momentos de pura lucidez canabista. Um filósofo. O alívio cômico de uma série de comédia.

O roteiro não tem dificuldades para esmiuçar tragédias que rondam o cotidiano dos três. O preconceito racial, assim como problemas sociais em geral, é posto em perspectiva absurda, às vezes surreal, e a comédia será extraída do modo com que negros, emergidos em uma sociedade historicamente preconceituosa, aprenderam a lidar, aceitar, adaptar ou reagir.

1. Louie

Louie é a celebração do pessimismo - supõe-se que a sentença faça qualquer sentido. Aqui, não há qualquer necessidade em se falar de qualquer outro personagem além do personagem-título. Louis C.K., junto de Gervais, é provavelmente um dos comediantes mais polêmicos e geniais das últimas décadas, ao menos. Em Louie, C.K. dirige, escreve, produz, atua e o que mais houver. A série é dele, mas não apenas sobre ele.

Aos moldes de Seinfeld, acompanha-se a vida boêmia do comediante Louie. Ultrapassado seus quarenta anos, recém divorciado e pai de duas filhas, há em seu intento principal a tentativa de conciliar envelhecimento e ausência de perspectivas otimistas para o futuro com o dever de ser um bom pai. Mas a execução da série não se restringe à construção subjetiva de um único personagem. Há espaço para todo e qualquer assunto, principalmente os polêmicos, já que os episódios alternam entre vida e palco do comediante, com boas e hilárias sequências de stand-up.

Li, n'algum lugar, uma boa definição para a comédia de C.K.. Algo próximo a: "se existe um limite para a comédia, C.K. o molesta". Portanto, são vários os momentos chocantes, em que o riso se abraça ao assombro. Contudo, rimo-nos. A intenção da comédia de Louie talvez seja, por meio de uma tragédia, fazer-nos rir e, instantaneamente, sentirmo-nos mal pela alegria. Vai, um pouco, à contramão de 'schadenfreude'. Corrijo-me: é uma celebração não precisamente do pessimismo, mas da tristeza, de sua existência. A vida é tremendamente triste e é preciso conceber em si mesmo a tristeza para, por fim, a felicidade ganhar espaço.

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Outras séries que poderiam ser citadas: Better Things (FX, 2016-), Barry (HBO, 2018-), Curb Your Enthusiasm (HBO, 2000-), Bored to Death (HBO, 2009-2011), Extras (BBC Two, 2005-2007), Community (NBC/Yahoo, 2009-2015), Hello Ladies (HBO, 2013-2014), Lucky Louie (HBO, 2006), Spaced (Channel 4, 1999-2001).

Este texto foi escrito por Charles Pichler para o Clube Minha Série.