É até difícil de acreditar, mas La Casa de Papel, a famosa série da Netflix, amargou números pouco convincentes em sua exibição original na Espanha. Prova disso é que apenas 1,8 milhão de espectadores acompanharam o episódio final da produção, que foi ao ar em 23 de novembro do ano passado pelo canal Antena 3 – índice bastante tímido para os padrões do horário nobre da televisão espanhola.

Por aqui – e em diversos países, como França, Itália, Argentina e Turquia –, porém, a história é outra: desde que chegou à Netflix, La Casa de Papel conquistou a audiência de um jeito arrebatador. Foram seis semanas consecutivas no topo da lista das séries mais seguidas pelos usuários do TV Time, e até Neymar, o craque, recomendou a produção, que inspirou inclusive a turma do Carnaval de rua aqui no Brasil.

Para ajudar os fãs da série a entenderem por que ela fez tanto sucesso na versão internacional, Sonia Martínez, diretora de ficção do Antena 3, e Álex Pina, criador de La Casa de Papel, conversaram com o jornal espanhol El País e contaram o que, na opinião deles, pode ter dado o empurrãozinho para que a produção deslanchasse em terras gringas. Confira os melhores trechos da entrevista:

A questão do formato e os personagens

Para Sonia Martínez, La Casa de Papel “é uma série que carrega o formato do streaming no DNA. Você se prende a ela de uma maneira que as horas vão passando e você tem a sensação de que precisa consumir mais. É o produto ideal para ser visto sob demanda”. A diretora do Antena 3 também aponta a construção dos personagens como fator de sucesso: “Sabíamos que eles eram delinquentes, mas queríamos que as pessoas percebessem que eles também são o lado bom da história, que cumprem um desejo não muito incomum, que é o de atingir algo como a Casa da Moeda. Além disso, é uma série que penetra pelo olhar a cada frame”, disse.

Conexão com os anseios do público

Já para Álex Pina, a série estabeleceu uma conexão entre os espectadores e a frustração que eles sentem com a crise econômica. “Os personagens que roubam a Casa da Moeda têm um quê de antissistema, que se conecta com nossa decepção com os governos, os bancos centrais etc., uma frustração muito bem representada por aquelas pessoas. O [jornal francês] Le Monde, mesmo, publicou uma reflexão política sobre a série exatamente nesse sentido”, destacou.

Adaptação para o formato da Netflix pode ter influenciado

Martínez e Pina também acreditam que um elemento determinante para o fraco desempenho de La Casa de Papel em sua transmissão original, na TV espanhola, foi a mudança nos hábitos de consumo dos espectadores de séries. “É um tipo de produto ao qual você precisa dedicar um olhar mais íntimo, atento, ininterrupto”, disse Martínez. “Nunca planejamos isso, mas, inconscientemente, acabamos criando algo que só encontraria o seu lugar no mercado de streaming.

O ritmo de La Casa de Papel favorece que você a assista do seu jeito, com o máximo de atenção. Até os espanhóis estão redescobrindo a série graças à Netflix. Muitos sequer souberam que ela havia sido exibida, talvez porque não assistam mais à TV aberta”, disse.

Para Pina, os intervalos comerciais que interrompiam a exibição na TV prejudicaram a experiência dos espectadores com a série. “La Casa de Papel é frenética, cheia de adrenalina. As coisas acontecem quase em tempo real, então os intervalos comerciais provocavam uma interrupção brusca, difícil de lidar”, defendeu.

Pina também destacou o universo dos personagens como fator de sucesso. “Criamos uma ficção com características próprias, com personagens e um universo feminino muito forte e poderoso. Temos ao mesmo tempo elementos emocionais, com personagens excêntricos e surpreendentes, e uma ambiguidade moral em que mudamos o foco do que o espectador pensa ser bom ou mau. Berlim (Pedro Alonso), por exemplo, é um vilão com características magnéticas”, acrescentou.

Em sua versão internacional, La Casa de Papel – originalmente composta por 15 capítulos de aproximadamente 70 minutos cada – foi reformatada para caber em episódios de cerca de 50 minutos. Assim, a primeira parte da série, que na Espanha teve 9 episódios, na Netflix subiu para 13.

“Sempre tentamos remontar as séries para exibições internacionais”, contou Pina. “Nesse caso, tínhamos o problema dos cliffhangers que fechavam os capítulos, o que acabou aumentando bastante o nosso trabalho de pós-produção. Algumas tramas tiveram de ser reeditadas para caber em capítulos diferentes, claro, mas o bom da série é que ela tem um fluxo contínuo, em que o capítulo seguinte sempre começa de onde o anterior terminou, e isso garante uma flexibilidade maior do que outros tipos de montagem. As experiências visuais de La Casa de Papel no formato Netflix e no espanhol são completamente diferentes, mas a essência é a mesma”, concluiu Pina.

Terceira temporada: um novo plano?

Como já antecipamos aqui, La Casa de Papel vai ganhar uma continuação. O sucesso da série desde que chegou ao streaming foi tão grande que o Antena 3 topou vender os direitos para que a Netflix produzisse uma terceira temporada, agora exclusiva. Ao que tudo indica, o Professor (Álvaro Morte) deve apresentar um novo plano de assalto. Hora de especular: e aí, qual será a bola da vez?

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.

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