Jeremy Thorpe foi um político britânico cheio de potencial, que teve sua vida e sua carreira impactadas diretamente pelo envolvimento com um jovem chamado Norman Scott, seu ex-amante. Em 1979, ele foi acusado de tentar matá-lo para livrar sua própria pele, tornando-se o primeiro político do país a ser julgado em um caso dessa natureza.

Quando o caso dos dois vem à tona, Thorpe, líder do Partido Liberal, estará disposto a fazer de tudo para esconder a situação, já que a homossexualidade não apenas era crime até pouco tempo antes, mas também ainda é malvista pela sociedade, em plena década de 60, podendo arruinar todo o trajeto que ele construiu.

Esta será a trama da mais nova minissérie em três episódios lançada pela BBC, com Hugh Grant no papel de Jeremy Thorpe. Como Scott, veremos o ator Ben Whishaw (No Coração do Mar; A Garota Dinamarquesa; franquia 007).

Na cadeira de diretor, Stephen Frears comanda o show. Ele é conhecido por Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha, Florence: Quem é Essa Mulher? e A Rainha.

E detalhe: os fãs de Doctor Who vão gostar de saber que um dos roteiristas da série, Russell T. Davies, é quem assina a adaptação de A Very English Scandal, a partir do livro publicado por John Preston em 2016.

Além de Grant e Whishaw, a série traz no elenco Alex Jennings, Patricia Hodge, Naomi Batrick, Morgan Watkins, Susan Wooldridge e Michael Culkin, entre outros nomes bastante conhecidos das produções inglesas.

Confira o trailer da série:

Por trás da trama

Apesar de não ser um episódio tão conhecido para quem não se interessa muito pela história do Reino Unido, os fatos que se passaram no período retratado na série da BBC tiveram reflexos diretos sobre a política do país na segunda metade do século XX.

Com uma agenda liberal, Thorpe caminhava para ser um dos políticos mais poderosos do país e um dos mais jovens a chegar a tal posição. Em 1967, ele se tornou o líder de partido mais jovem do século em terras britânicas (apenas 37 anos).

Quem acompanhava sua carreira, então, nem imaginava que, somente uma década depois, ele estaria completamente arruinado, graças a um affair que teve com um jovem cavalariço e aspirante a modelo entre 1961 e 1964.

Por incrível que pareça, Thorpe conseguiu manter seu relacionamento com Scott oculto do grande público por mais de uma década — o que provavelmente foi facilitado por se tratar de um tempo em que a internet ainda não existia.

Quando membros do partido e apoiadores do político souberam de sua bissexualidade e da existência do antigo caso, Thorpe foi aconselhado a tomar as rédeas da situação e garantir que o jovem não iria a público com a história.

E a gente já sabe qual é a única forma de fazer isso, não é mesmo? Em 1975, em uma tentativa de assassinar o cavalariço, o ex-piloto de avião Andrew Newton acabou errando o tiro, que atingiu o cachorrinho de Scott, Rinka.

Daí para a frente, a situação se agravou para o lado de Thorpe, pois Scott não poupou esforços para escancarar a história e fazê-lo pagar pelo crime cometido.

Embora não existam provas de que o político era o culpado, a reputação dele já estava manchada — páginas e páginas de jornal abordavam o escândalo, que foi capa dos periódicos mais lidos de todo o país.

Em 3 de maio de 1979, Thorpe perdeu sua cadeira no Parlamento e, 3 dias depois, teve início seu julgamento. Embora ele tenha sido considerado inocente em 22 de junho, sua carreira política nunca mais decolou.

Apesar da projeção que o caso ganhou na corte e na mídia britânicas — ou, talvez, por causa disso —, ele segue sendo um dos mais mal-explicados da História. O rápido julgamento, que durou ao todo cerca de 45 dias, absolveu o acusado firmando-se sobre evidências bastante capengas.

O atirador, Andrew Newton, passou 2 anos na prisão por ter matado o pobre do cachorro; porém, Dennis Meighan, que foi procurado para a encomenda do crime, disse em 2014, durante a produção de um documentário para a própria BBC, que foi contatado por um representante de um nome grande do Partido Liberal a respeito do ocorrido.

E essa revelação se deu agora, pois, na época da investigação, ele sequer foi chamado para testemunhar, apesar de seu nome ter aparecido. Na ocasião, o homem conta que só recebeu um testemunho oficial já digitado, apenas para ele assinar, deixando de fora vários detalhes e informações do depoimento que havia dado à polícia.

"Eu li a declaração, que não deixava de me favorecer, mas também não prejudicava Jeremy Thorpe, porque o deixou completamente fora. Então eu pensei, 'Bem, eu tenho que assinar isso'. Ele praticamente deixou de fora tudo o que era incriminador, mas ao mesmo tempo tudo o que eu disse sobre o Partido Liberal, Jeremy Thorpe etc. foi deixado de fora também."

Para tornar tudo ainda mais suspeito, Newton foi dado como morto durante anos, mas ressurgiu agora, com outra identidade. De qualquer forma, a polícia não pretente reabrir o caso, especialmente considerando que vários dos envolvidos já faleceram — o próprio Thorpe morreu em 2014.

Para saber como a série vai explorar tudo isso e trabalhar essa linha de desconfiança e conspiração, agora teremos que esperar para ver a produção! A Very English Scandal estreou na Amazon norte-americana no dia 29 de junho, mas ainda não está disponível na versão brasileira da Prime Video.

Este texto foi escrito por Lu Belin via nexperts.