[Esta é uma crítica SEM SPOILERS do filme Ferrugem, que estreia nesta quinta-feira, dia 30 de agosto, nos cinemas do circuito nacional]

Ferrugem, longa de Aly Muritiba (que já havia impressionado a crítica com Para Minha Amada Morta) e vencedor do principal prêmio do Festival de Gramado 2018, é um ótimo exemplo de que um filme sobre adolescentes não é necessariamente uma comédia romântica, uma obra superficial ou mesmo “bobinha”.

Brutal em seu retrato de uma realidade compreensível somente para quem é ou foi adolescente há pouco tempo (mais especificamente, já na era Instagram de selfies e WhatsApp), é empático o suficiente para que todos possamos entender os sentimentos de vergonha e pressão social associados com a adolescência.

Na trama, Tati é uma estudante do ensino médio (assim como sua intérprete, a estreante Tifanny Dopke) que tem um vídeo íntimo com o ex-namorado vazado na internet, tornando-se alvo de humilhações na escola, com o agravante moderno de que ir para casa não resolve, devido ao cyberbullying no ambiente virtual, de onde não é possível escapar.

" data-cke-saved-src="/uploads/editor_pictures/000/065/414/content_pic.jpgCyberbullying, revenge porn, e o poder das mídias sociais de acabar com a imagem das pessoas são apenas alguns dos temas do longa brasileiro Ferrugem

Acompanhamos também os efeitos da situação no introvertido Renet – interpretado pelo jovem Giovanni de Lorenzi, que você pode reconhecer da novela Deus Salve o Rei. Colega de classe de Tati, os dois estavam iniciando um romance quando tudo acontece e imediatamente ele se torna um dos suspeitos de ter publicado o infame vídeo.

Enrique Diaz (de O Mecanismo da Netflix, e das minisséries da Globo, Justiça e Felizes para Sempre?) e Clarissa Kiste (presente na primeira temporada da série 3%) são os pais de Renet e praticamente os únicos adultos da trama. Os dois entregam boas atuações, como de costume, e adicionam um elemento a mais de pais divorciados que divergem completamente em como lidar com o comportamento do filho deslocado.

Diaz é o pai protetor que prefere não saber do que o desagrada, mas disposto a fazer o que for preciso para acobertar o menino caso seja necessário. Já Clarissa interpreta uma mãe rejeitada pelo filho após o divórcio, mas que acaba sendo de quem ele precisa para se abrir.

Tati (Tifanny Dopke) e Renet (Giovanni de Lorenzi) em cena de Ferrugem

Curiosamente o rosto dos pais de Tati nunca são vistos. Talvez porque esse não é um filme sobre o drama que eles também vivem. Talvez porque é sobre o sofrimento solitário dela, ainda que não esteja completamente sozinha.

Mais do que um longa em dois atos, Ferrugem parece conter dentro de si dois filmes completamente diferentes sobre uma mesma história. A primeira parte constrói uma situação cruel e suas reações imediatas, enquanto a segunda é um estudo de personagem de um ponto de vista pouco explorado da mesma situação. A grande proeza é que ambas são ótimas.

Com uma discussão extremamente relevante e contemporânea, a produção aborda o revenge porn – prática de vazar fotos ou vídeos íntimos de mulheres para envergonhá-las em público – e a responsabilidade daqueles que “só” compartilham. Como bem pontua o slogan do cartaz do filme “consequências também são compartilhadas” e os propagadores são tão criminosos quanto quem publica esses conteúdos.

Cartaz alternativo do longa brasileiro Ferrugem

Por fim, o filme foi rodado em Curitiba e no litoral paranaense, então traz uma estética diferente para quem está acostumado com longas brasileiros do eixo Rio-São Paulo ou com fortes traços regionais do nordeste. É belo, refrescante e nos lembra da grandiosidade e do potencial do cinema brasileiro.

Se você ainda precisa de um motivo para conferir Ferrugem no cinema, saiba que ele é um dos concorrentes a ser o escolhido para representar o Brasil no Oscar 2019.

Pôster de Ferrugem, do diretor Aly Muritiba

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