Então é (quase) Natal, e o que a Netflix fez? Adaptou a obra literária homônima Deixe a Neve Cair (2013), escrita por John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle, para monitores, TVs e dispositivos móveis, seguindo o fluxo da tradicional avalanche de conteúdo natalino que toma conta de nossos lares durante esse período. Mas será que a adaptação é um presente inesquecível ou apenas uma decepção empacotada com o laço vermelho da gigante do streaming?

O cenário é Waffle Town, é véspera de Natal e uma nevasca dificulta o deslocamento pelo lugar, forçando amizades, dilemas e romances em três histórias adolescentes que despertam familiaridade pelos clichês do gênero, mas que encontram seu valor. A direção é do novato Luke Snellin, que carrega os opacos Wanderlust (2018) e Banana (2015) em seu portfólio. Sua versão de Deixe a Neve Cair segue parcialmente a essência do livro e toma liberdades para criar complementos narrativos que situam o espectador em temáticas atuais, como smartphones e redes sociais. Os contos se entrelaçam em 1h33m e são facilmente compreendidos devido ao tom leve adotado pela direção em conjunto com as envolventes atuações de um elenco escolhido a dedo.

Deixe a Neve Cair aquece o coração com clichês teens (Crítica)
(Fonte: Netflix/Divulgação)

No conto "O Expresso Jubileu", Isabela Merced e Shameik Moore protagonizam o casal que apresenta uma densidade mais corpórea em sua construção. Além da boa química, a dualidade entre eles é sensitiva e capaz de justificar todos os entraves que a eles são postos até a conclusão. Em "O Milagre da Torcida de Natal", no entanto, há uma alternância nos holofotes em relação à obra original, e o triângulo amoroso vivido por Mitchell Hope, Kiernan Shipka e Matthew Noszka é meramente funcional e reticente; o que se destaca é a dosagem um pouco mais elevada no quesito aventura. Já em "O Santo Padroeiro dos Porcos", Odeya Rush e Liv Hewson seguem dilemas distintos, tocados de forma rasa e que, de alguma forma, conseguem se complementar perto do fim.

Aliás, falando em complementação, é justamente esse fator que gera a magia do longa. Se existem disfuncionalidades em determinados pontos, são preenchidas quando os contos se cruzam — e aqui se sobressaem os personagens interpretados por Jacob Batalon, Joan Cusack e Anna Akana, por exemplo, responsáveis por algumas pontes importantes, mesmo com tempo ínfimo de tela. E é claro: se a obra é voltada para o universo adolescente, não podia faltar uma grande festa no fim, pensada carinhosamente para unir as tribos e afagar o coração do espectador. São momentos em que você se sente acolhido e, dependendo do nível de afetividade, algumas lágrimas podem escorrer pelo rosto.

Deixe a Neve Cair aquece o coração com clichês teens (Crítica)
(Fonte: Netflix/Divulgação)

Deixe a Neve Cair é um despretensioso apanhado de subtramas adolescentes que cumpre seu papel em ser afetuoso por transmitir importantes mensagens não exclusivamente natalinas, mas que servem para a vida de modo geral, sobretudo ao jovem recém-chegado na vida adulta. Excelente pedida para quem procura escapismo com conotação positiva, embora seja muito provável que você assista hoje e esqueça no dia seguinte. De certa forma, um grato presente sob a árvore dos assinantes da Netflix.

Este texto foi escrito por Fabrício Calixto via nexperts.